30.6.11

Pra não perder o hábito

 Pros dois, três cristos que leem essa folha volante:
 Como eu ando ocupado diuturnamente com a faculdade - até sábado de manhã, quando vou transcender viajando pro Paraguai (!)-, decidi postar um pedaço do meu trabalho de análise de fotos, do portfólio e tal. Que ficou uma patuscada. Me admira ele aceitar:

 Como ONacional é jornal de elite, achei que ia diversificar o trabalho descer o nível, subindo no salto: a coluna social.
 Página Direita, 13: Os óculos azuis da Céia Giongo são ridículos, o coordenador da 15ª Construmóveis pagando de tiozão-despota-esclarecido-e-moderno usando, pasme os m-e-s-m-o-s óculos... pontuais, como o relógio dependurando na parede também é ridículo. A foto é poluída e oss sorrisos são bexiguentos como o Jeca Tatu do Monteiro Lobato. O primeiro plano nunca foi tão mal aproveitado, nem quando eu finjo que fotografo.
 Isso mostra o que os ricos (ou simpatizantes) querem: serem fotografados na inauguração de uma outlet – Página Esquerda, 12 - não sabendo patavinas de inglês-tampouco de vírgulas: é só ler a coluna pra saber o porquê do tamanho da colunista, ela come as vígulas (sim, péssimo trocadilho)-, e esquecendo que na outlet só se encontra ponta de estoque. Não adianta tomar champagne pra disfarçar. Mas todos sorriem, como se os nazistas tivessem se enganado nos botões e ao invés de Zyclon B largassem gás hilariante pela corrente de ar.
 Ah sim, o Gui Benck, assina as fotos. Tanto faz se é a Vinícola Salton quem patrocina.

26.6.11

pés de plástico vonnegutiano

 Fui no posto comprar canudos. Enquanto vaporizava alguns, um dos três disse algo como que umas nuvens substituíam outras. Nevava mas não chovia. Menos mal. Andei um bocado. O bastante pra sentir conforto em casa e amarrotar o blusão de lã. Minhas mãos queimavam debaixo das luvas. A pele do meu rosto quebrava.
 Bota roupa que lá fora tá dois graus e meio, rispostava minha mãe. A minha irmã foi correndo pro quarto. Eu ainda fedia a Marlboro, mas já passa. Não li Diderot, muita gente no café. Agora meus pés doem e eu ouço Lou Reed. Se não me engano, Blue Mask é baseado em James Joyce. "Wayayves of Feear". Sono.
*
 Ainda tenho mais meia carta do Diderot pra ler. Ele tão chato pra missivas quanto o meu pai pra viver. Passando de meticuloso quando na real é deveras prático.
 ...E ela que não entra mais no msn. Talvez tenha me bloqueado. Eu entendo porque.
*
...Bloqueou sim. Que estúpido. Todo mundo vê quando eu uso verificador.net
 Fanfarras shakespearianas. Cortinas.

25.6.11

Flaneur

 Uma pernada até o Esporte Club Capingui. Cartazes de treino de futebol society do E.C Vila Nova. Fiz um trabalho sobre eles pra cadeira de Jornalismo Experimental: Como moleques ramelentos chegaram nas semifinais do Mundial de Interclubes na França.
 Porra, eu tava sem crédito no celular e ela também. Eu estava sentado naquelas cadeiras de plástico da Coca no Shopping da Praça e ela me convidou. Achei que era o Capingui láá fora, a sede campestre. Que nada. Depois de ir até o Bar Oasis e não achar ninguém, voltei pro Plaza pela Moron, a mesma rua pela qual eu voltara do Bella, onde tomei um café no Mc. Capuccino caldeirão, escorrendo calda de chocolate. Parecia sorvete, só vendo.
 As ruas ficam repetitivas fácil.
 *
 Entro no estádio e os caras suando, de manga curta, arranhando a grama sintética. Os torcedores, provavelmente familiares, nas mesmas cadeirinhas de plástico da Coca. Vou até o bar, peço pela minha amiga. Nada. Peço se tem algum orelhão. "Ali na entrada". "Tu vende cartão?". "Não". Peço se posso usar o celular dele. "Eu pago", digo.  Largo o Diderot e o mangá da minha irmã no balcão. Ele olha os títulos. Julga pelas capas. Dito pra ele o número. Chama. "Rafa, eu não vou mais entrevistar ele". "Por...". "A vizinha disse que ele morreu. Faz oito dias". Digo meus-pêsames e o protocolo todo. Minha voz se afina feito um ganido de cadela quando eu me impressiono. O cara pede que eu agilize. Desligo.
 Tento pagar, ele não aceita. Levo uma Coca, então.
*
 Suspiro e termino a Coca sentado numa pilastra, na plataforma. Abaixo a General Osório se suicidava rumo ao Boqueirão. A rua quedava, era o interior de um cigarro que entortou no bolso, junto com as chaves, mas sem tabaco. Desci ao invés de subir. Me doíam as pernas. Quem me visse, de cigarro atravessado, diria que eu ia pra boca. Estava com frio. E apertado.
 Caraleo, que péssima forma de perder uma pauta. Aliás, o cara era filho do dono/fundador do Cine Teatro Pampa.
*
 Postei esse na pressa. Lá fora gritos celebram qualquer gol. Tanto faz.
 Dor nas costas

24.6.11

dadá

 Li A Prostituta Respeitosa e um livreco com cara de cardápio - e papel cartonado - do Guy de Maupassant. Na mesma manhã. Me senti tão satisfeito pela abstração. Ultimamente eu só me debato com futilidades.
*
 Barulho & ruído. Ler entre os outros me passa a ideia de cumplicidade. Azar da ilusão. Meu celular rimbomba o mp3 da The Jesus & Mary Chain. Ando tão shoegazer que as minhas pernas são o papel de parede do note. Adoro itálico em doses homeopáticas. Na real ele surgiu pra cortar custos de impressão, mais tipos em menos folhas. Tipo a função do jornalismo, apesar de muitos se esquecerem. E outros nunca esquecerem. Meia-pataca. Faz sentido.
*
 A tia da limpeza levou meu copo de café apesar do lastro de chocolate em pó no fundo do copo de plástico. Ultimamente eu tenho posto açucar até no passado. !. Em que estou me tornando.
 O livro Dadá: Arte e Antiarte é pesado. Frustra que eu tenha enjoado de ler depois do capítulo do Dadá em Zurique. Agora vou ler - tenho que ler - o capítulo do pós-dadá-e-o-do-neo-dadaísmo pra um trabalho. Pra terça. Diagramar e tal. Odeio.
 *
...Porra, pôr um penico numa plataforma e dizer que é arte por-que-eu-disse-que-é é muito descaramento. Dadadane-se;

23.6.11

Insuportável

 Foi uma violência visual aquele casal de mãos dadas. Meu Corpus Christi parece Dia dos Namorados. Meu coração se engomou com uma corda.
 No Mundo Livre tinha um estande da Chilli Beans. Meus amigos olhando óculos escuros cinco da manhã. A mulher veio me atender e eu fui ríspido, ela levantou as mãos e implorou tá-bom. Me senti mais lixo. Eu deplorando o estado da minha garganta, só queria dormir, morrer, enfim, qualquer fuga já que a sugerida por Sartre: piscar - e se pisca quatro mil vezes/minuto -, tinha lá suas falhas. Até o cigarro tinha esgotado suas possibilidades, no momento em que depende do bem-estar da minha garganta.
 Que drama pelo sexo oposto. Nem vale a pena. Só queria que parasse de doer, porque ando me achando um esquizo masoquistinha. Quase na porta do psiquiatra mais sádico com as anfetaminas. Caminho  ameaçando chorar. Desde domingo não me suporto, fico gorando como fui estúpido. Como se não fosse criar mais motivos para me desorgulhar ainda. É insuportável.
 Vejo corvos brancos nos ombros dos bancos. A praça responde à anseios dos brônquios e cospe pombas introjetando a extinção. Anônimo, eu leio um livro enquanto os pretensos rockers me ridicularizam com sua linguagem pré-embalada.
*
 Porra, Alcione Araújo esqueceu que como intelectual também cria suas gírias e seus códigos para não ser incomodado. É mais contraventor ainda. Afinal, quantas cabeças na platéia do SESC, naquela noite da 1ª Mostra, entendiam o que significa "ilação". Não o cristo que representava "a pessoa" do prefeito, que, eu suponho - mas sem arrogância - que nunca viu uma peça em detrimento de pilhas kafkianas de processos.
 *
 Ando meio shoegazer também. Loveless sempre me pareceu uma falência aos ouvidos, agora levantava até defunto. Mas, lembrando, odeio clichês.

21.6.11

20.6.11

Fantasmas & panóptico

 Só quero ouvir Beatles sem fazer nada. Os três fantasmas do Natal passado me visitaram. Não foi nem um pouco dickensiano. Dormi quatro horas depois. Sono. Pelo menos a garganta melhorou. Vou trocar o café pelo chá. Se eu lembrar. Como o vegetarianismo.
 Meus pais descobriram que eu cabulei sexta & sábado. Porra de panóptico. Fascismo travestido de moral & cívica. Claro que não é, mas é tendência, então preocupa igual.
 Como sou estúpido em relacionamentos. Mas andava com saudades do platonismo. Fora que eu admiti que sou masoquista.  Claro que não é, mas é tendência, então preocupa igual.
 Não sei eles descobriram dos cigarros também ou só esperam a história esfriar pra esfregar a bituca na minha cara. Por puro sadismo.
 Coitados, a vida deles é o trabalho. Eles sobrevivem pra isso. Só não admitem. Creio que sofram menos. Mas a vida deve ser chato. Eles tem tanta rotina que batem livro ponto quando chegam em casa. Chegar na última casa do tabuleiro com mais fortuna. E menos ventura. Foda-se.

19.6.11

Mundo Livre

 Almoço megero. Minha mãe continua puta da cara. Isso por eu ter pronunciado as seguintes palavras: "Só não avança nele".
 Numa mesa inevitável a menina e eu corei e senti o toldo com o qual eu blindara meu remorso rasgar e eu fiquei empapado de suar e mãe dela me olhou risonha segurando o copo do suco. Eu até antecipei outros arrependimentos que, é previsível, virão, e cruzei os braços para a minha cabeça curvada e os gestos atrapalhados. Finalmente eu notara: estava em débito comigo mesmo.
 Eu era o Stephen Dedalus de Retrato do Artista quando Jovem que escondia a cabeça entre os cobertores temendo ir parar no inferno se não rezasse rápido o bastante.
*
 Cof, cof
 Eu via a fumaça engatinhando pra fora dos cigarros. Ela se enroscava na umidade como numa orqustra sulfurosa-e-suicida: um canto do cisne, com o perdão do clichê.
 Eu me encostei nas barras de contenção até sentir frio, e do decálogo de cigarros eu fumei um atrás do outro, como se eu dinamitasse minhas perspectivas. Depois minha cabeça ficou tipo navegandonavegando e eu enjoei enquanto os carros da frente, nem tão miniaturizados, se amontoavam atrás dum Corsa relapso. Via suas luzes. Quase um carrossel flash mobile.
 Queria dormir, mas antes por algo pra dentro. Meus olhos estavam vidrados e eu as minhas olheiras pareciam os bolsos furados que os mendigos viram ao avesso para atestar falência.
 *
 Na conveniência meu colega de aula. Ele ouvia o Caetano tropicalista. Baita.
 Enquanto eu lambusava os dedos com o corante dos chips um velho chega dizendo que vai assaltar o posto.
 "Me dá toda a maconha que tu tem".
 "Enrolada ou solta?"
 Ele ri e pede um Free vermelho só.
 *
 Me dão carona até a porta de casa e eu esqueço os óculos no porta-luvas. Cinco e meia.
 Cof, cof

17.6.11

Kilgore Trout

 Dois tempos depois da parada a calça amarrotou e eu-que-tinha-desejado-que-chovesse. O que tinha debaixo das minhas duas meias pra cada fileira de artelhos não respondia por pés. Eu era Kilgore Trout em Café-da-Manhã dos Campeões caminhando no Sugar Creek, que resplandecia de a gordura e embotinava de resíduo plástico os pés. *
 Tempo.
 Eu via as acrobacias dos cabos pra não cairem uns dos outros. Um zumbido artrópode atrás da malha e um triturar nas paredes da minha cabeça.
 Acendi um cigarro.
 Como eu ganhei noite passada, e ele passou a madrugada no bolso & uma mulher sentou em cima no ônibus, estava tão reto quanto uma torneira.
 As gotas na parede eram lagartixas. Foi como dar um tiro pro alto: nenhum gato. A árvore se fez animação e o barulho se curvava pro crepipipitar da brasa do Marlboro vermelho.
 Percebi que andava polinizando o chão de bitucas, então apaguei ele na água que se projetava da canaleta e voltei pra redação. Joguei a guimba no lixo. Me olhavam
 Ando meio paranócio. Também.

"Nem sempre se tem pernas"

 Investir a vida de sublime. Normalmente me tiram pra bicha por isso. Se enquanto eu caminho mastigando nuvens nuvem as pessoas, pior ainda, inalam do monóxido das suas próprias circunstâncias numa festa, por exemplo, num pisotear chulo - e monótono em seu conjunto, demasiado uniforme - de afirmação de juventude, tão própria dos velinhos que temem o dia em que vão ter que se recolher nos seus cantos, antecipando.
 Claro, eu não sei dançar. E a noite é escura e o dia não suporta ficar chuvoso, então sempre me obrigo às lentes escuras pra não baixar a cabeça. Que vida. Seria de sofrer pra investir de "felicidade" o marasmo, como a esposa do Stalker sugere no filme homônimo? Seria só um nome, aliás, como tudo.
 *
 Ninguém gostou muito da peça. Eles descambaram do kitsch pro ridículo quando as galinhas alçaram do baú e os atores penaram pra trazê-las pra debaixo da ribalta de novo. Mas foi tão particular ver o cara que retira o lixo batendo no peito coberto de espuma do exterminador de pragas & animais. Eu quase chorei. Atrás as bocas estouravam as costuras de marionete.
 Gastei um bocado depois. Bife de soja é uma hipocrisia e tem gosto, imagino, de bolo de lama

16.6.11

Pauladas

 O meu peito se abaulava pra que eu dormisse com as pauladas. Toc toc. Chapinhar pela seção Arte da locadora era um anódino pra macarronada de músculos que se enroscam. Preguei a ponta do lençol por profilaxia. "Taxa de câmbio & ordem no caos". Que clichê. O peito latejava com a mesma frequência que um cão projeta-e-recolhe a língua e faz arf arf & baba.
 Que triste: unha e barba compridas. O dever não. Clichê. Parei de ler o jornal. Escrevo ao invés disso. Tem a mesma valia: um sapatear no palco azul do tanto faz. Se tropeça. Shoegaze.
 As árvores tem qualquer coisa de pré-históricas e os cipós estrangulam e bailam. Corre o lanterninha, tropeça e morre. Não tem sangue: do pescoço sai uma tiragem de setecentos mil exemplares. A tinta mancha. Mata-borrão.
 Um bebê contraiu o rosto como se fosse por tomar limonada. Quando me viu desatou a rir. Como são idiotas e o quanto somos coniventes com eles ao menos. Ainda.

11.6.11

cerveja

 Os bêbados margeavam comigo nas calçadas e baforavam caco de vidro. Sopesava um orvalho urbano. Ás voltas com o mesmo problema, tudo congelava. Beber uísque perdeu a graça. Chega de estrangeirismos pra barrela da bile. Pendurei os corpúsculos de Krause para secar no sereno, como um cortiço deambulando.

7.6.11

Amok

 Pés com rigor mortis. Eles atravessavam asfalto como os barcos da patrulha ambiental dividem o Rio dos Sinos esporadicamente, repleto de peixes boiando como barquinhos de papel.

Chuva

 A chuva isolava em penínsulas a terra e as folhas. No barral, um pássaro se sobressaía, impermeável aos pingos. Rasando. Os pingos d'água, num paroxismo existencialista, se encarapitavam nas pontas dos galhos evitando se imiscuir com os outros pingos e se tornar catadupa, multidão. 
 O pássaro embainhava as asas como um morcego, e ouvia o crepitar. Unhas esmaltadas de roxo, fatias de pneumáticos, canudos brancos: "humanos", meneou a cabeça automaticamente e mergulhou.

5.6.11

3xFumaça

 Era como no livro do Gaiman, você atrás do espelho e eu precisava te tirar do doppelgänger, porque de dentro você não refletia.
 Só se estatelava nas escadas do mundo amargo.
 Eu que já menti amor e que sempre evadia desse clichê percebo que omiti contigo. Fora as mentiras.
 Faz frio nas ruas, meu casaco é termo acessório. Não chove, mas tudo que eu vejo está ensopado e eu gripo com facilidade.
 Me enrodilho diante das possibilidades, como o esquizóide de El Túnel. Te procuro nas ruas. Em vão. Vou. Só quem sem ninguém a tiracolo. Nem sinto os pés e o calçamento foi premeditado para que eu tropeçe até preferir não sair da cama.
 As subidas são íngremes e não tem heliportos. Só nos pulsos em que nas fantasias as mariposas ébrias descansam pra depois migrar a poesia que é a vida heremita. Concha-casulo-tecido. Livro-caixa-ante-braço.

Viejo

 O velho se resignava sabendo que era anônimo, e que, torcendo, nem achariam o seu endereço para deixar as contas e convites para missas de trocentos dias.

Sabato in memoriam

 Como a morte da literatura é algo muito subjetivo, os jornais anunciam a morte de escritores. Que a longo prazo, dá no mesmo, no final das contas.

4.6.11

I am Walrus

 Eu deitava uma carreira de fumaça pra trás, como um transatlântico. Os meus olhos lacrimejavam com o-frio-e-o-arrependimento. Escaldava como o Tâmisa. Estava na minha. "I'm crying". Uma amiga me pediu o que ouvia. Guardei o fone - "Strawberry Fields".
 Que inveja, no ônibus luvas grossas. Minhas mãos estavam no congelador e estilhaçavam como placas contra o vento de dezembro.