19.6.11

Mundo Livre

 Almoço megero. Minha mãe continua puta da cara. Isso por eu ter pronunciado as seguintes palavras: "Só não avança nele".
 Numa mesa inevitável a menina e eu corei e senti o toldo com o qual eu blindara meu remorso rasgar e eu fiquei empapado de suar e mãe dela me olhou risonha segurando o copo do suco. Eu até antecipei outros arrependimentos que, é previsível, virão, e cruzei os braços para a minha cabeça curvada e os gestos atrapalhados. Finalmente eu notara: estava em débito comigo mesmo.
 Eu era o Stephen Dedalus de Retrato do Artista quando Jovem que escondia a cabeça entre os cobertores temendo ir parar no inferno se não rezasse rápido o bastante.
*
 Cof, cof
 Eu via a fumaça engatinhando pra fora dos cigarros. Ela se enroscava na umidade como numa orqustra sulfurosa-e-suicida: um canto do cisne, com o perdão do clichê.
 Eu me encostei nas barras de contenção até sentir frio, e do decálogo de cigarros eu fumei um atrás do outro, como se eu dinamitasse minhas perspectivas. Depois minha cabeça ficou tipo navegandonavegando e eu enjoei enquanto os carros da frente, nem tão miniaturizados, se amontoavam atrás dum Corsa relapso. Via suas luzes. Quase um carrossel flash mobile.
 Queria dormir, mas antes por algo pra dentro. Meus olhos estavam vidrados e eu as minhas olheiras pareciam os bolsos furados que os mendigos viram ao avesso para atestar falência.
 *
 Na conveniência meu colega de aula. Ele ouvia o Caetano tropicalista. Baita.
 Enquanto eu lambusava os dedos com o corante dos chips um velho chega dizendo que vai assaltar o posto.
 "Me dá toda a maconha que tu tem".
 "Enrolada ou solta?"
 Ele ri e pede um Free vermelho só.
 *
 Me dão carona até a porta de casa e eu esqueço os óculos no porta-luvas. Cinco e meia.
 Cof, cof

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